os sete véus da alma


À noite, o conto.

 

 A noite já ia alta quando ao longe um grito vindo do fundo da minha alma me fez despertar insone como se fora meio dia após uma noite bem dormida.  Os gritos! Meus velhos companheiros nas madrugadas insones. Quando criança ouvia os gemidos das mortes a rondar minha cabeça infantil, tinha medo da morte. Talvez não dos fantasmas que dizem que ela deixa quando leva um corpo amado ou não, embora isso também me assustasse vez ou outra, mas somente quando defunto era feio.  Existia em minha casa, ou na minha mente um pesar de morte, sempre. Não lembro de um dia em que não tenha sido embalado por ela. Creio que as crianças conseguem ter medos gigantes. Houve um tempo em que a morte era só um medo, um presságio de algo que eu nem sabia ao certo o que era, por que essa visita nunca tinha adentrado nossa casa, e das visitas às casas alheias sabíamos por alto.  Não era partilhada com as crianças, não íamos a velórios, e nem se falava claramente sobre senhora das sombras, mas eu sabia de alguma forma que não era algo bom. Mas houve um dia em que ela chegou pela porta da frente da nossa casa e instalou-se no meio da sala. Agora, já não era apenas minha imaginação infantil, era real, terrivelmente e real. E ninguém pôde fugir, nem salvar as crianças desse contacto. Lembro ainda com receio o crepitar das velas sob aquele corpo velho e cansado. Na noite que antecedeu a visita, os gritos não cessaram, e eu me vi a noite toda atônita de medo. Ainda tentaram nos proteger deixando pra revelar que a “indesejada de todos” se encontrava na casa apenas pela manhã. Mas o creptar de velas naquele quarto me antecipou o informe, minha avó tinha partido. Desse primeiro encontro, apenas ficou nos dias seguintes o medo do fantasma.  Das tantas outras partidas, pai, tios, que trilharam os labirintos secretos do outro mundo, ficaram saudades. Aprendi com o tempo que a vida também tem prazo de validade, e que para uns o vencimento é bem curtinho. Colhi nas idas e vindas da vida, dessa brincadeira e morrer, que ela é mais que uma sombra. Nessa noite em que os gritos me açoitam bebo as mortes de mim, nessa taça cansada do meu corpo. Num canto do meu quarto, vejo os sonhos que não foram agonizando. Mala pronta de desejos reprimidos, um desenho de destino desbotado. A vida há tempos se fez ausente. Aqui estou eu mais uma vez olhos grelados no teto, suada, e corpo todo tremendo.  E ela novamente sentada aqui ao meu lado. Nessa noite em especial ela dança em minha frente e eu nem tenho coragem de puxá-la para mim, toma-la em meus braços e dormi ao lado desta que creio talvez me desse à paz e calma que jamais tive.  A morte essa dançarina de vermelha que tanto me seduz.  Creio que antes que o canto das madrugadas adentre meus ouvidos eu deixarei de existir, seja porque a loucura me dominará de vez ou porque de malas prontas me deixarei ser guiada pela dançarina.

 

Daniela Alexandre.



Escrito por Jaguar às 22h24
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Foto de Daniela Alexandre



Escrito por Jaguar às 22h17
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Era tarde linda! Cheia de sonhos que escorriam pelas calhas. Nelas banhou-se o tempo que veio, chegou de mansinho e depois voltou ao fundo do cosmo. Era uma tarde apenas, eu mulher feita sentada na varanda de um esquecimento de outro dia. Era passado? Não lembro. Era saudade!... E as bicas lavando almas, a minha já tomada pelo  encardido do tempo nem ousei banhar-me, apenas olhava a bica. Houve um tempo que a bica trazia um frio que me aquecia de outros corpos. Eu própria bica me escorria em tardes assim. Hoje nessa tarde eu mulher talhada no barro da vida, lapidada pelas dores de outros tempos me faço rocha, e deixo que Nix visite-me e deixe-me descansar em seus vazios, que também são os meus, nessa tarde que breve será noite.

 

Foto:Rogaciano Santos



Escrito por Jaguar às 10h30
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Queria me traduzir, ser gente sem carne osso. Um dia olhei uma borboleta e a vi como gente. Ela lá na sua leveza de flor nem sei o q pensava. Nem se o que eu pensei sobre ela foi correto. Tive a impressão que ela me olhava e dizia: Pobre verme que me decifra.



Escrito por Jaguar às 10h26
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Fragmentos

Chega o domingo em seus tons infantis, palhaço sem cambalhota, um circo em mim.

Quarto, cozinha, sala... Carrossel de fantasia. “Hoje é domingo pede Cachimbo”. Pede um carinho, pede um  beijo.  Revejo fotos, viro gavetas, saudade chega e me traz uns  cheiros. Domingo infantil, quase pueril, cheio de desejo...



Escrito por Jaguar às 10h15
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Escrito por Jaguar às 10h13
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Das Dores de Maria.

Seu nome era Maria José, mas bem que poderia ser somente José. Tinha outra irmã que de batismo herdou as dores, Maria das Dores. Confinadas nos fins de uma propriedade rural desde crianças, a única diferença dos irmãos homens talvez fosse mesmo o sexo, que por algum capricho nasceu em forma de rasgo entre as pernas. Das faceirices femininas nunca se pode observar nada.

Viviam aquelas duas da lida rural, a se esquecerem de que deveria haver algum sentido maior para vida.  De um tempo em que o sexo era tabu entre moças, é possível que sequer tenham elas gozado o prazer da masturbação. Ou quem sabe, se escondidas em seus quartos, em devaneios, imaginassem o falo dos cavalos e touros que tão desavergonhadamante gozavam suas éguas e vacas sem nenhum pudor daqueles olhos virgens de qualquer júbilo do prazer.

Quando criança eu as olhava com olhos de incompreensão. Vislumbrava as esquisitices daquelas moças que pareciam homens. De seus sofrimentos, nada pensava.  Nem mesmo hoje sei se abstrai alguma compreensão sobre essas Dores de Maria. Era uma gente que mesmo jovem na idade, pelas carranças pareciam envelhecidos. Anos a fio aquela gente confinada aquela lida: aboio, ordenha, plantar e cortar capim. Sábado era dia de feira e de negociar, eles (os irmãos) negociavam, talvez fossem elas à feira em busca de um sonho de amor.

Era uma família grande, que os anos com seus açoites foi levando um a um.  Alguns conseguiram o feito de casar e seguiram outras veredas da vida. Outros foram tocados pela mão esgueirada da inconveniente. Destino, agonia... Quis assim um além que Maria e Das dores nem morressem nem vivessem, apenas permanecessem sobre o chão a carpir essas desventuras de enterrar. Quanto crepitar de velas, quanto cheiro de morte. Abortos de sonhos e planos foram remexidos junto com esterco das vacas. Quantos silêncios, vontades de mãos nos seios foram veladas ao ordenhar as vacas imaginando toques sobre as suas. Nesses sepulcros em que ambas imergiram a vida toda, as vi nessa tarde no alpendre saudoso de risadas. Duas velhas, rosto lívido e solitário. O amor não veio e a morte ainda tarda.  

 Daniela Alexandre

 

 



Escrito por Jaguar às 10h10
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Escrito por Jaguar às 10h08
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Partilha do tempo

 

Hoje em mim bateu aquela velha saudade

Desbotada,

Encarquilhada pelo o tempo incontável.

 

Hoje visitou-me

O outro dia do adeus,

Salivei minha lágrima comedida.

 

Agora sigo eu

Minha eterna cara na janela

Toda lua cheia de espera.

 

Encarquilhei a alma,

amiudei o passo.

E, ainda visto essa velha saudade desbotada.

 

D.A



Escrito por Jaguar às 10h06
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Meu corpo esse cárcere de lamento

Minha boca esse vulcão de silêncios

Minha vida esse abismo de partidas.

Daniela Alexandre

 



Escrito por Jaguar às 07h43
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lua mulher

Em meio ao nada sigo os passos da noite.
Não trago em mim
nada além que meu olhar dormente.

Veste-se meus olhos de céu
E todo meu olhar
É de encanto pela lua

As vezes branca, as vezes Cheia,
E mingua a noite
as vezes de saudade.

E se faz nova a lua,
Eu afago meus braços
E ela se faz em arco

Em
que pensa

a lua mulher
na varanda de seu quarto?



Escrito por Jaguar às 09h59
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carta de amor

Querida Beatriz

            Sinto agora uma saudade avassaladora de sua companhia. Não sei se por que estou a beira da paranóia de tanto te amar, ou se por que de fato estas distante, sinto todo esse silêncio que vem de você. Tentei encontrar seus olhos nas estrelas e infelizmente parece que você os fechou. Porem minha querida tento trazer vivo cá dentro de mim esse sentimento ainda que confuso.

            Caminho lentamente sob a noite, a lua parece adormecida, o que gera  uma leve penumbra por entre os galhos das árvores. E assim admirando essa imagem vou naturalmente me tele transportando pra o nosso espaço de encontro, onde penumbras, noites e luas são nossos companheiros. E assim vou colhendo em minha mente a lembrança de nosso ultimo encontro antes da minha viagem, lembro de seu carinho e de nossa saudade antecipada. Meu coração parece encontrar o compasso de seu abraço e vai acalmando-se de mansinho como criança ninada nos braços de um ente amado. A angustia dar espaço para e lembrança do seu sorriso.  E assim olhando a lua semi-oculta percebo que ela cumpriu o seu dever de nos aproximar, pacto selado entre nós duas sem nem ao menos consultá-la. Escuto no marulhar das águas sua voz a dizer-me: “minha criaça”! E assim toda a angustia que ora sentia transforma-se apenas na saudade e vontade de revê-la em breve.

 

Laura Barros.

 



Escrito por Jaguar às 23h26
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AUSENTE

Não é do teu perfume que sinto saudade

Nem mesmo lembro o que usavas.

Não me recordo mais do seu sorriso

Nem nossa cama reclama a sua ausência.

Não te ligo no natal por que perdi teu telefone

Não recordo de ti mais que teu nome.

Não recordo tuas camisolas

Nem trago mais em meu corpo o cheiro do teu.

Não  recordo mais de cor a nossa música

Nem lembro mais o que sentíamos

Ao caminharmos de mãos dadas.

Todos os dias passam sem nenhuma sombra de ti,

Mas é quando floresce o flamboyant,

E a brisa fria aparece por traz do sol

Que avermelha em mim

 O vazio que sinto sem você.

 

Daniela Alexandre



Escrito por Jaguar às 07h35
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ESCOMBROS DE MIM

O inferno de mim é o que penso.

O que eu sinto é apenas um sopro

Do medo, da vergonha do medo...

Tenho por hábito sentir do fundo de mim

O medo.

 

Silencio quase tudo.

Minha voz, de tanto calar, já não lembro seu tom.

Tenho perdido minha voz a cada dia em que silencio

À vontade de partir.

Não para o adeus que distancia tudo.

Quero partir para a ousadia, trilhar caminhos outros!

Sendas, labirintos, peder-me, achar-me.

 

Quero romper a calmaria a minha volta

Deixar que o inferno desse momento abrase-me

Queime-me.

Quero arder. Já não suporto o gelo da minha alma.

 

As quimeras idealizadas longe se vão,

Sobra o abismo de mim

Precipício mortal.

 

 

                                               Daniela Alexandre

                                                         

 



Escrito por Jaguar às 08h08
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solidões de um domingo a tarde.

SOLIDÕES DE UM DOMINGO À TARDE.

 

Domingo pede alegria, pede sol, pede Igreja, mas também pede birita e pagode. E talvez por isso, pela birita e o pagode, lá estava ele, aspecto franzino barba fechada e uma alegria típica de domingo, mas apenas a primeira vista. Domingo pede família, pede amigos, pede aconchego... Mas domingo também é dia de solidão, e assim, ela vai se revelando em gestos quase imperceptíveis, sendo revelado apenas pela lente indiscreta de alguém que também a vivência numa tarde quente de domingo. Foi diante daquele homem de ações estranhas que vi minha alma solitária revelada. Ele dançava pagode sozinho, alias o vazio a sua volta era gritante. Num dado momento ele tirou uma dama para dançar, a qual ela de pronto aceitou, e foi um espetáculo, os presentes  olharam a cena e riram, o que casal tão absorto em sua entrega nem percebeu. Seu gingado era impar, a dama o acompanhava fosse qual fosse o rítimo ou paço que o cavalheiro manifestasse. Fiquei a observá-los de longe, indiscretamente admito, talvez por ter sido a primeira vez que vi de perto alguém desesperadamente tentando driblar a solidão, e nesse desespero ter como dama para dançar uma cadeira de bar. E então fui vendo que naquele espaço éramos todos vítimas de uma mesma solidão, quantos ali buscavam refúgio na bebida, quantos (as) em seus casamentos falidos, quantos nos amores de aluguel, quantas fugas... No entanto aquela em especial me chamou atenção, talvez por que a partir dela percebi que a diferença entra a minha própria e a dele é que minha cadeira ao lado estava ocupada.

 

 

Daniela Alexandre.

 



Escrito por Jaguar às 07h37
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